26.11.09

a merda e a arte

Por Lindevania Martins

Merda de artista

O artista plástico Piero Manzoni organizando latas de conserva com suas próprias fezes.

Em 1917, Marcel Duchamp chocou o mundo das artes.


Retirou o urinol do banheiro e o trouxe para o espaço principal de uma exposição artística. Inventou, assim, o “ready-made”: o uso de um objeto cotidiano e não-artístico como… artístico.

Ao utilizar elementes pré-existentes, afastando seus usos comuns em prol de usos novos de acordo com certos conceitos, Duchamp também afastou a necessidade da técnica visto a desnecessidade de dominar a matéria-prima, ampliou os limites da arte e abriu a possibilidade, talvez, a qualquer um de ser artista. Por outro lado, forçou uma nova postura do público de arte, confrontado com obras questionadoras, provocativas, incômodas.


Em 1961, foi a vez Piero Manzoni.


O italiano pensou, elaborou e apresentou uma obra inédita. Visceral e íntima por excelência, para a qual não deu o sangue, mas algo que poderia ser extraído do seu corpo com menos sacrifício e de forma mais natural.


Trata-se do trabalho “Merda d’Artista”: fezes de Manzoni enlatadas e vendidas a peso pelo equivalente a 1 euro. Foram um sucesso. As 90 latas de conserva se espalharam por vários museus pelo mundo, incluindo os respeitáveis Tate de Londres, MoMa de Nova Iorque e o Georges Pompidou de Paris. Nos rótulos das latas, podia-se ler: “Merda d’artista, numerata, firmata e conservata al naturale”. Alguns anos depois, algumas dessas latas explodiram, por conta de corrosão e da expansão dos gases.


FCS_Manzoni

"Vendo uma idéia. Uma idéia dentro de uma lata". (Piero Manzoni)

A obra do italiano engrossou a discussão sobre os limites da arte. Dicussão esta que continua até hoje, com novos protagonistas engendrando com frequência rupturas pobres. Manzoni questionava as formas tradicionais da arte, seus objetivos e métodos. Entre suas influências, são citados, além do próprio Marcel Duchamp, Jackson Pollock e Yves Klein. Embora tenha sido o primeiro artista plástico a realizar algo tão radical, poetas como Antonin Artaud já haviam tomado a “merda” como tema. Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza Ser”, discorreu logamente sobre os hábitos fecais e banheiros em diversas partes do mundo. Por aqui, o brasileiro Rubem Fonseca escreveu o conto “Copromancia” cujo protagonista era obcecado por seus resíduos.


Manzoni também produziu outros trabalhos polêmicos. Em 1958, vendeu balões preenchidos com ar de sua própria respiração: quem os adquirisse poderia respirar o “ar do artista”. Em 1960, imprimiu suas expressões digitais como assinatura em ovos cozidos e convidou o público para comê-los. Toda a exposição, cujo nome era “Consumação da Arte”, foi devorada em 70 minutos. Em 1961, criou um pedestal chamado “Base Mágica”: quem nele subisse se transformaria em uma obra de arte. Chegou a pensar em encher garrafas com seu sangue e vendê-las. Mas nesse caso, ficou só na intenção.


Enquanto alguns aplaudem Manzoni, outros dizem que esse ato de excreção, e não de criação, justifica a expressão de que a arte contemporânea é merda. Literalmente. Quando tudo tem sentido, nada tem sentido. Quanto tudo tem valor, nada tem valor, pois tudo se torna intercambiável.


Enquanto o italiano fez trabalhos com seus resíduos corporais, o brasileiro Vik Muniz recria símbolos mais do que conhecidos da arte mundial, como a Monalisa de Da Vinci ou o Che Guevara de Andy Warhol, utilizando também materiais inusitados, embora muito mais caros que os utilizados por Manzano, como diamantes; gostosos, como chocolate ou manteiga de amendoim; ou doces, como acúcar. Ou não tão asquerosos, como lixo. Aqui, o mais importante é o uso inusitado do que o que está sendo criado. Digo, recriado. Não seria isso uma forma de perseguir originalidade por vias oblíquas? Expressão de uma necessidade narcisística de instaurar “qualquer coisa” nova?


Em 2007, Manzoni teve uma de suas obras vendidas por mais de 1 milhão de libras. Uma lata com fezes, hoje rara, alcançou há pouco anos o valor de 120 mil libras. O alto preço de suas obras no mercado não desatualiza a pergunta que se faz desde os anos 60: será isso arte?

E por outro lado: será que Manzoni não foi levado a sério demais? Será que tudo que ele queria não era rir da arte, inclusive da própria? Rir de nós?

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Página oficial do artista, falecido em 1963, com apenas 29 anos de idade:

http://www.pieromanzoni.org/index_it.htm

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extraído de Catálogo de Indisciplinas.

24.11.09

AMBÍGUO DE FORA


Nasci de um coito estéril
Sem saber pra que lado ia
Por um lado riso zero
Pai que não entrega a mão da filha
Meu outro hemisfério
Versa na arte da palhaçaria
Quem me acha sério
Precisa ver meu brasão de família

Sérgio Viralobos

22.11.09

O PROCESSO


Faço de tudo pra agradar
Na cama sirvo seu chocolate
Preparo seu almoço no vapor

Ela cospe no meu jantar
Dou-lhe a outra face
E o melhor peixe do pescador

Ela me joga ao mar
Parece disparate
Acho isso amor

Tento evitar
Que ela se mate
O processo já começou

Sérgio Viralobos

21.11.09

polly jean harvey

20.11.09

SONG FOR ANA


Penso em você
Mais que de vez em quando
Acabei de te ver na tv
Figurando num comercial estranho

Assobiei o seu abc
Enquanto tomava banho
É um amor sem por que
A distância me deixa humano

Vamos juntos até morrer
Mas como todo bom cigano
Vou na frente pelo prazer
De ver a viúva alegre chorando

Sérgio Viralobos

NÃO À EXTRADIÇÃO


DIÁRIO DE UM PALESTINO

a violência é tão fascinante
queria ter dito isto antes
não fui eu que inventei o terror
nada me impede de ser um monstro
ao menos por um minuto
enquanto eu esquento o pavio curto
um simples massacre no aeroporto
com o meu detonador de dinamite
ver estrelas não é bonito ?
se você ainda estiver vivo
desconfie do seu bom gosto
o defeito melhora o seu rosto

Sérgio Viralobos e Marcos Prado

OSTRANENIE, a road poem


Pego nessa estranha lógica do mundo

Peço carona para a família de malucos

Que tem como hobbies mais esdrúxulos

Não contar as horas, só contar os cucos,

Trocar beijos como quem troca socos,

Praguejar como um bando de marujos

E tomar na cara achando que é soluço.

Perguntam a meu nariz se estamos juntos

Rasuram paisagens, comem presunto,

Depois falam falam falam como loucos

Até ficarem sem voz e sem assunto.

Desço, em algum antigo vilarejo russo.



Rodrigo Garcia Lopes

19.11.09

LÁGRIMAS DE CRISTAL LÍQUIDO


ela queria que eu fosse um robô
eu só fiquei desumano
arranquei os lábios do batom
com minha boca enferrujando

os robôs também choram
dê-lhes uma cebola

Marcos Prado e Edson de Vulcanis

15.11.09

VENUS ROBÓTICA


Love robot, é uma das telas expostas na mostra Venus Robotica: sex-robot sur catalogue, em Paris. A boneca, obra de uma artista que assina June-1, é um dos quinze trabalhos de várias tendências artísticas cuja missão é inspirar designers a construir as robôs humanoides mais sedutoras do futuro. Thierry Ruby, o diretor do Cabinet des Curieux, onde Venus Robotica acontece até o fim de dezembro, lança: “O tema é atual”. Atualíssimo.

Segundo o britânico David Levy, campeão internacional de xadrez, expert em inteligência artificial e autor do best seller Love + Sex With Robots, atualmente não é sequer possível imaginar os avanços que serão realizados nos próximos três anos nas (e nos) robôs humanoides. No seu best seller, Levy sustenta que até 2050 será normal alguém ter uma relação íntima com um robô. Mais: será comum uma pessoa se apaixonar por um (a) robô humanoide – e se casar com ele(a). E ter ciúmes da ou do robô humanoide.

Fonte: Carta Capital

REPLICANTES, INOCENTES E GAROTOS PODRES EM CWB

BRASIL ADENTRO


Saio do trabalho distraido
Pisando no pé de um pedinte
Esgotos a céu aberto
Me acompanham pelas ruas
Um cheiro de desinfetante
Misturado com rato morto
Esquenta ainda mais o calor
Um bêbado gosta da minha gravata
E me chama de pastor
Mais duas quadras e chego em casa
Pra alegria das baratas
Hoje sou eu que persigo o brasil
Posso dizer que somos íntimos

Sérgio Viralobos


14.11.09

ROLÊ EM BELÉM


Neste final de semana acontece o Festival Se Rasgum, em Belém do Pará. Ano passado, assisti alguns shows do palco, graças aos meus amigos do Plebe Rude, que estavam se apresentando.

Para esta edição, o evento teve 103 bandas inscritas só do Pará, de diferentes estilos. O Festival foi apontado pela Revista Bravo! como um dos cinco festivais mais importantes da atualidade. Neste ano, a Se Rasgum também passou a integrar a Abrafin, a Associação Brasileira de Festivais Independentes.

O Festival será realizado no African Bar, no centro da capital paraense, com o seguinte formato: dois palcos, onde as atrações se revezam em shows seqüenciados e sem intervalos. Um terceiro palco, armado no espaço Laboratório, apresenta trabalhos experimentais, DJs e apostas em novos talentos. Completam a estrutura do evento os espaços da feira de moda, piercing & tatoo, mini ramp, ações de grafitagem e stêncil, praça de alimentação e o Ecolounge.

Algumas das bandas escaladas: Nação Zumbi (PE), Bonde do Rolê (PR), Gork (SP), Pato Fu (MG), Comunidade Nin-Jitsu (RS), Digital Dubs com BNegão e Ras Bernardo (RJ), Velhas Virgens (SP), Hablan Por La Espalda (URU) e Pinduca, o rei do Carimbó.


POESIA PAU-BRASÍLIA



No final da década de 70 do século passado, eu morava em Brasília e havia um poeta chamado Nicolas Behr que mandava no pedaço. Chegou a vender 8 mil cópias mimeografadas do livro Iogurte com Farinha, de mão em mão. O homem ainda está vivo e virou ecologista. Veja alguns de seus poemas da época.

ninguém me ama
ninguém me quer

ninguém me chama nicolas behr


AMOR PUNK

aquele beijo na boca
que você me deu
semana passada
tá doendo até hoje

pra noca


HOSPITAL DA POBRÁS

berçário

Pai: Nicolas Behr
Mãe: lápis e papel

Nome: Parto do Dia
Pêso: 16 páginas
Sexo: Biodegradável
Estatura: 16,5 cm

obs: a criança só come
iogurte com farinha


SAÍDA DE EMERGÊNCIA

subo aos céus

pelas escadas rolantes
da rodoviária de brasília

o corpo de cristo
aqui não é pão
é pastel de carne

o sangue de cristo
não é vinho
é caldo de cana

o padroeiro desta cidade
é S. João Bosco ou Padim Ciço?

13.11.09

sempre é bom ouvir

SEXTA 13 NO INFERNO


Sexta-feira 13 de novembro Inocentes e Replicantes pela primeira vez juntos. A apresetação histórica acontece no Inferno na Rua Augusta, 501 - SÃO PAULO.

11.11.09

FACEBOOK IS ON THE TABLE


Selvagem mesmo!!! Me apaixonei!! Adoro homem malvado!!!
Eu sequer consegui chegar em casa. uma merda. beijo.
Parecia um filme pornô pra cachorros

Passarinho que anda com morcego acorda de ponta cabeça

Imagino o fascínio!!!

O sistema se recuperou de um erro grave

Só o que por nunca nú

Você continua comendo uva na chuva
Olha o cheiro do filme queimando...
Kkkkk hehehe ahahaha
Adicionar é preciso
Viver não é preciso

Sérgio Viralobos





8.11.09

BAKUN EM SÃO PAULO




O nome do pintor paranaense Miguel Bakun (1909-1963) dificilmente aparecerá associado na história da arte brasileira ao do artista multimídia carioca Hélio Oiticica (1937-1980), a não ser pelo fato de Bakun, um criador genial ainda pouco conhecido fora do Paraná, ter montado seu ateliê justamente no ano em que Oiticica deu seu primeiro berro no mundo, em 1937. Por uma dessas razões que o místico Bakun saberia explicar, ele e Oiticica estão juntos num mesmo espaço, o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), em São Paulo, que abre hoje duas exposições, Da Estrutura ao Tempo, com 18 obras de Oiticica e curadoria de Cauê Alves, e Miguel Bakun: Natureza e Destino, com 31 telas escolhidas pela curadora Eliane Prolik para homenagear o centenário de nascimento do pintor, comemorado no dia 28.A reunião dos dois, a despeito de parecer insólita, tem tudo a ver. Ambos trabalharam na contramão. Bakun, como Oiticica, era um outsider. Desculpas antecipadas pela expressão inglesa, mas falar em marginal seria se apropriar de uma palavra de ordem do último, que fez de um estandarte vermelho sua obra e profissão de fé: "Seja marginal, seja herói".
Luz é uma palavra-chave para entender a pintura de Bakun. No auge do abstracionismo geométrico, dominante nos anos 1950, ele pintava paisagens com uma paleta limitada de cores - coincidência ou não, as quatro da bandeira brasileira: verde, amarelo, azul e branco. "O primeiro impulso, um pouco simplista" é transformar Bakun "num desses expressionistas extraviados", observa o crítico Ronaldo Brito no catálogo da exposição.No entanto, garante Eliane Prolik, curadora da mostra, a pintura do autodidata Bakun não é devedora da tradição, mas da intuição, apesar de muitos o associarem a Van Gogh - e isso não só pelo uso do amarelo como pela religiosidade mística e as paisagens em que a figura humana aparece amalgamada à natureza. De família com poucos recursos, ele conheceu, sim, Pancetti quando estava na Marinha, outro autodidata, mas dele só conservou o gosto por autorretratos como forma de autoconhecimento. Há, inclusive, um, pintado em 1944, em que Bakun aparece numa pose hierática, a exemplo dos autorretratos de Pancetti. Com uma diferença: ele consegue ser ainda mais melancólico.Segundo amigos e familiares, Bakun produziu algo em torno de 800 obras, muitas delas ainda no ateliê do artista quando ele se matou, em 1963. Depressivo , Bakun testemunhou o que seria uma manifestação teofânica em 1960, quando, ao rezar, ouviu um estrondo que abalou seu ateliê. Começava uma viagem para a luz, marcada por formas mais nítidas e tons mais claros.
Gostar de Bakun não é facil: seus quadros não seduzem de imediato, seu amarelo é sujo, quase esverdeado. Bakun não é nem mesmo um colorista, mas a atmosfera de suas obras perturba, se impõe.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

7.11.09

MORREU ANSELMO DUARTE


Conheci Anselmo Duarte há alguns anos, quando ele já estava com Mal de Alzheimer, mas continuava um grande contador de casos. Na festa desta foto, o Carlos Careqa também estava.

CIDADE OBUS


Agora que estou indo embora
Começo a gostar do lugar
Ignorância à flor da pele
Às vezes é bom pra variar

Você fica muito mais esperto
Onde o barbeiro pode furar sua jugular
Cortei o cabelo bem rente
Mais um cadáver bóia do rio pro mar

Marabá quer dizer filho de francês com índia
Cidade bastarda procurando se encontrar
Mais triste por mais dessemelhante
Estou indo embora pra não revoltar

Sérgio Viralobos

5.11.09

poema glauberiano

3.11.09

O ANACORETA SOMBRIO


Sou arrogante
Com o pouco que tenho
Pra me arrogar

Fico distante
De quem me estende a mão
Do mínimo ao polegar

Sei o bastante
Pra não saber de mais nada
Sou suprassumo do superstar

Mundo não vai adiante
Não digam que não avisei
Ser tão assim vai me virar mar

Sérgio Viralobos

2.11.09

NOTÍCIAS DE LONDRES




O Coletivo Rádio Cipó, de Belém do Pará, foi convidado pra se apresentar no London International Festival of Exploratory Music of 2009, que será realizado entre os próximos dias 4 e 7, no Kings Place, em Londres. O Rádio Cipó é um núcleo de produção de mídia sonora aliado à tecnologia de áudio digital caseira na produção de pesquisas sonoras experimentais com o objetivo de divulgar essa produção para o Brasil e no exterior. Seus integrantes são Carlinhos Vas, Renato Chalu, Guto Baca, Jared das Arábias, Ratto Boy e o convidado especialíssimo Mestre Laurentino.
João Laurentino da Silva, vulgo Mestre Laurentino, nasceu em Ponta de Pedras (PA), em 1926, completou 83 anos de vida e 60 de carreira sem ter gravado um único disco – um autêntico marginal. Que, porém, não ficou parado e tratou de criar formas de música pra lá de particular, produzindo centenas de fitas cassetes gravadas no quintal de sua casa. Detalhe: nelas, dá pra se ouvir uivados de cachorros, papagaios gritando, galinhas e patos cacarejando, um fuzuê. Acabou criando uma linguagem diferenciada no ato de fazer música. Começando pela personagem Mestre Laurentino ou Laurentino da gaita – estiloso que só ele, produz suas próprias roupas. E ai de quem mexer com o velho: leva sempre na cintura sua faca francesa, a famosa "provoca que eu te finco". Em Londres, vai tocar as músicas "Loirinha Americana", "Negra Missamplu", "O Roque da Aranha Cor de Rosa" e "Vale de São Fernando".
Aproveitando a ida pra Europa, o Rádio Cipó se apresentará, no dia 8 de novembro, no famoso pub Favela Chic, em Paris.